sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Difícil, mas não impossível.



2011 começou como sempre, muito calor, chuvas intensas, desmoronamentos, falta de remédios em postos de saúdes, alta de preços na cesta básica, caos aéreo, violência de todo tipo, filas de pais em escolas.
Enfim, nada de diferente.

Daí a gente pensa que precisa começar o ano com pé direito.
Precisamos manter o pensamento positivo.
Não te dá uma dor na consciência às vezes?

Ficamos entre a cruz e a espada. Pelo menos me sinto assim.
Trabalho num posto de saúde aonde vão pessoas miseráveis e muitas vezes preciso dizer que o remédio procurado não tem.
Por outro lado saio de lá e me jogo numa maravilhosa piscina ou deito no meu quarto gelado pelo ar condicionado.
E olha que não sou nem classe média baixa...

Não posso me contaminar, mas também não quero ficar como a técnica de enfermagem que contou que não sentiu nada ao ver a criança de menos de 2 anos morrer na sua frente depois do tio tê-la atropelado sem querer.
Aham, este tipo de criatura insensível existe na área de saúde, aonde precisávamos de pessoas sensíveis para lidar com pessoas já assoladas pela falta de saúde.

Tem gente que diz que a gente se acostuma. Será?
Eu considero este discurso próprio das pessoas amarguradas.
Nunca irei me acostumar com determinadas situações.
Meus pais tinham mais de 70 anos e não se tornaram idosos insensíveis como tantos, pelo contrário, a mãe ainda chorava ao ver o sofrimento das pessoas.

Outro dia eu estava um pouco irritada - o que não é difícil - estava cansada, um calor absurdo, correndo atrás de pagamentos, sendo enrolada, enfim, não era um bom dia.
Foi quando parei na casa da mãe de uma vendedora. Quando eu comecei o tratamento ela estava uma fase na minha frente.
Hoje, quase 5 anos depois, ela ainda luta contra o monstro que insiste em corroer seus órgãos lentamento e com muita dor, muito sofrimento.
Tinha acabado de sair de mais um internamento. Está bem debilitada, magra, sem cabelo, sem sobrancelha.
Tem esperança porque Deus lhe enviou um neto, talvez para que ela lembrasse que há motivos para continuar querendo viver.
Saí de lá com sentimentos de culpa, incompreensão e vergonha.
Culpa porque nestas horas a gente se sente mal por estar tão bem.
Incompreensão porque não dá para entender porque uns superam e outros sofrem.
E vergonha porque eu estava reclamando de tudo quando tenho o mais importante: SAÚDE.

Sei que não dá para ficarmos 100% felizes todos os dias. Faz parte de nós termos problemas que nos deixem meio pra baixo.
Só não podemos dar tanto valor as nossas pequenas dificuldades para não torná-las maiores do que realmente são.

"A tristeza é uma forma de egoísmo" já dizia Arnaldo Antunes.

Mesmo que o mundo nos dê mil motivos pra sermos tristes, com certeza temos outros tantos que nos fazem felizes... e é neles que devemos nos focar.