terça-feira, 29 de junho de 2010

A minha Paranaguá.



Sempre quis embora desta cidade. Sempre.
Durante minha infância pensava em morar perto dos meus primos em Curitiba.
Depois quando fiquei um pouco mais velha queria apenas sair desta vida pacata e sem graça pra viver no caos urbano que Curitiba sempre representou.
Uma das coisas que achava mais legal quando íamos pra lá era ficar preso no trânsito, observando as pessoas nos outros carros.
Acho que sempre tive uma atração por engarrafamentos.

Eu ia para o apartamento de uma amiga e ficava olhando o movimento dos carros na via-rápida, o acender e apagar das luzes dos apartamentos, o caminhar dos pedestres que lá do alto pareciam formigas.
Como me considerava encalhada, pensava que talvez o amor da minha vida se escondesse por trás de uma janela destas ou quem sabe dentro de um ônibus...

Claro que quando somos adolescentes somos extremamente idiotas e imaturos, além de sermos muito sonhadores.

Eu não gostava daqui justamente porque julgava já conhecer todas as pessoas que eu julgava serem interessantes.
Não achava legal esta história de sermos "alguém" enquanto que em Curitiba éramos apenas "mais um".
Nunca gostei de ninguém se metendo em minha vida, então se eu pudesse fazer minhas burradas de forma incógnita era melhor.
Até hoje acho chato saber detalhes íntimos da vida de pessoas que conheço apenas de vista. Claro que isso acontece em qualquer cidade do mundo, mas quando é uma cidade relativamente pequena como esta fica mais comum.

Já odiei Paranaguá.
Lembro que ia trabalhar pensando apenas o quanto destestava esta cidade, este marasmo, a simplicidade das pessoas, o sotaque, enfim, nada me agradava aqui.
A partir do momento em que podia passar meus finais de semana na nossa capital nunca mais fiquei aqui.
Eu sou do tempo em que não tinha um bar legal pra irmos no meio da semana, muitas vezes nos finais de semana também.

O tempo passa, as coisas mudam.

Não vou dizer que amo Paranaguá, não consigo definir este sentimento em meu coração.
Gosto. Gosto tanto que agora que posso ir embora simplesmente não tenho vontade.
Aprendi a viver e a conviver.
Mesmo assim, acredito que se um dia o destino me levar a morar longe, não sentirei saudades, nem terei vontade de voltar.

Triste é saber que a culpa disso não é da pobre cidade em si.
Paranaguá não evolui.
Tantas pessoas que vivem fora quando retornam constatam a mesma coisa.

Começando pela entrada da cidade. Não existe nada mais feio do que chegar em Paranaguá pela BR277 observando a sujeira nos canteiros, nas laterais, a feiúra dos bairros ao redor da pista, a falta de um simples portal dando um "bem vindo", a quantidade de ratos que corre entre os grãos que caem dos caminhões, a loucura do trânsito com bicicletas, pedestres, motos, caminhões, carros e carroças, todos disputando o mesmo espaço, indo para a mesma direção.

Chegando no centro, depois de sentir o odor da soja podre misturada ao coco dos pombos, ainda nos deparamos com uma realidade nada animadora.
Podem me odiar, mas nunca vi um cidadão mais porco que o parnanguara.
Nossa cidade é cheia de lixo. Tem lixo nas calçadas, nos terrenos baldios, em volta do trilho do trem.
Muito lixo.
A prefeitura até tem feito sua parte, mas não vence a porquice do cidadão parnanguara.
Já falei aqui do caso da minha lixeira. A pobre fica bem no caminho do pessoal da faculdade Isulpar, fazendo-se de idiotas simplesmente fingem que não sabem que aquilo é um cesto de lixo, para colocarmos sacolas devidamente fechadas e não jogar o papel do salgadinho, a lata do refrigerante.
O paranaguara é assim, não liga de ver lixo no chão, mas acha ruim quando chove e tudo fica alagado.
Daí vem com papo de que a prefeitura isso, a prefeitura aquilo.
Quanta hipocrisia!

Não estou dizendo que todos são porcos, eu sou parnanguara e não sou porca. Talvez porque educação comece em casa e muitos não tenham tido a mesma sorte que eu.
Logo que este prefeito assumiu, foram espalhadas centenas de lixeiras na cidade inteira. Talvez até milhares, não me lembro bem dos números.
Em pouco tempo foram destruídas por vandalos e palyboyzinhos turbinados.
Não adiantava muito também porque não fizeram um curso intensivo ensinando as pessoas a como usar as tais lixeiras. Bem, pelo menos era isso que pensava quando ia levar minha cadela passear aos domingos de manhã e via a avenida José Lobo cheia de lixo no chão, enquanto as lixeiras permaneciam vazias.
É difícil usar algo que nunca viram.

O povo desta cidade também não valoriza o que tem, não exige, não sabe se manifestar.

Se amanhã trouxerem a banda Calipso para tocar e os ingressos custarem 50 reais tenho certeza que lota, mas se for pra pagar 10 reais pra ver uma banda daqui acham muito caro.
Digo isso com conhecimento amplo.
Nem precisa pagar, vejo isso pelas festas populares aonde muitas atrações apresentam-se para praças vazias.

Paranaguá é a terra do "já teve".

Culturalmente falando estamos tão atrasados quanto uma tribo indígena que vive isolada dentro de uma floresta.
Nada incentiva nossa cultura.
Porque se você acha que somos apenas fandango está muito enganado.

O que falta aqui é uma política de valorização da cultura, da cidade de um modo geral.
A cidade é feia, suja, horrorosa.
Sim, temos nossa baía linda, aonde podemos fazer passeios de barco.
Podemos aproveitar um lindo pôr-de-sol do Rocio.
Tudo na vida tem dois lados.

O problema é estarmos parados no tempo.

Vejamos pelo nosso terminal urbano rodoviário. Destruíram uma praça histórica para construí-lo, mesmo tendo um curso antigo de História na Fafipar não houve mobilização para que fizéssemos algo a respeito, um protesto que fosse.
Hoje temos aquela construção horrível.
Como foi feita na gestão anterior o prefeito atual simplesmente preferiu a postura de apontar os defeitos e não as soluções.
Já acho que deve ser uma tristeza andar de ônibus, ter que ficar num terminal medonho deve ser pra acabar com a auto-estima de qualquer um.

E gastam milhões em divulgações, é outdoor, banner, busdoor, vinhetas na televisão, nas rádios, lay outs em jornais, e dá-lhe verba pra atender todos os seus interesses, mas não sobra $ nem pra pintar a estação ferroviária.

Agora estão construindo um aquário gigante, como tem em Santos. Tudo porque a empresa Callini depois do acidente com o navio Vicunha há uns 5 anos atrás, foi obrigada a ressarcir a cidade, aí surgiu a idéia do tal aquário.
Bem, sabemos que ali é um aterro, a estrutura construída é bem pesada, ouvi dizer inclusive, que laudos técnicos não aconselharam a obra, mas... pode trazer votos pra esposa candidata do prefeito, então pra que dar atenção a um laudo.
O fato de que o prefeito anterior gastou nosso dinheiro pra construir o centro gastronômico que foi colocado abaixo pra dar lugar a esta obra não significa nada.
A reclamação dos comerciantes que foram relocados pra o mercado novo (que é feio e parece inacabado) também não tem importância.
Também não faz mal que existam umas serie de medidas urgentes a serem tomadas para atender a saúde, o saneamento, a pavimentação... etc... pra que ouvir o que esta gente precisa?
Faltam médicos nos postos, faltam remédios, faltam asfalto, falta cursos, faltam, faltam, faltam...
Faltava até um aquário no meio disso tudo!

Seria cômico, mas é trágico!

Não gosto do rumo que minha cidade está tomando. Não é de hoje.
Penso que deveriam fazer campanhas voltadas a desenvolver a auto-estima do paranaguara, incentivando-o a desenvolver suas capacidades.
Vejo muito dizerem que "amam" Paranaguá, mas amar não é apenas uma palavra mágica que resolve tudo.

Amar é saber cuidar, saber prestigiar, saber votar, saber se indignar...

Talvez só reconheça que amo esta cidade quando daqui eu me for um dia, porque às vezes só damos valor as coisas quando a perdemos.